A Mostra Levy Alt se constituiu ao longo do tempo como um marco da Faculdade de Direito, sendo idealizada em homenagem ao grande mestre Professor Levy Silva Alt, falecido em abril de 2000 em um acidente. Algumas edições do evento foram realizadas ao longo desses anos, junto às Semanas Jurídicas, e, neste ano, de 2025, refundamos a Mostra, em um evento único como apresentação das produções científicas, extensões e criatividade artística dos estudantes e professores(as) do curso de Direito. Um espaço em que se integram ciência, ação e cultura, tal como prof. Levy Alt ainda é lembrado por todos seus ex-alunos(as).
Em memória e homenagem ao professor Levy Silva Alt seguem dois textos abaixo:
LEVY LEVITOU
José Renato de Oliveira Silva & Milena Costa Viegas de Oliveira Silva
“Os desafios, quaisquer que eles sejam, nascem sempre de perplexidades produtivas. Tal como Descartes exercitou a dúvida sem a sofrer, julgo ser hoje necessário exercitar a perplexidade sem a sofrer. Se quisermos, como devemos, ser sociólogos da nossa circunstância, devemos começar pelo contexto sócio-temporal de que emergem as nossas perplexidades.”(primeiro parágrafo de Pela Mão de Alice, o Social e o Político na Pós-Modernidade, do Prof. Dr. Boaventura de Souza Santos). Há uma semana, um sonhador a menos vagueia pelas ruas de Cáceres. Era caminhando nestas ruas que tilintava suas ideias e mirabolava seus planos, de quando em quando tropeçando em alguma pedra ou sarjeta desavisada. Não tropeçava porque enxergava pouco, como poderia parecer, pelo contrário, pois enxergava longe, para cima, rumo ao futuro. Não podia perder tempo com pequenos obstáculos à sua frente. Além do mais não se dispunha a olhar de cima para baixo, não o permitia sua humildade.
Há uma semana, Cáceres e a Unemat choram a partida de Levy da Silva Alt, não só um grande visionário ou seu maior jurisfilósofo, mas também um magnífico realizador de sonhos e esperanças. O candidato que simbolizou a campanha eleitoral mais alegre e otimista que a Unemat já vivenciou. O vencedor que carregamos nos ombros aos brados de “Levy levou, Levy levou”, e logo após fez um empolgante discurso: “um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze...”. O advogado franzino que negava-se a empenhar seus conhecimentos em favor do capital, mas agigantava-se na luta pela conscientização social dos alunos da faculdade de Direito que dirigia. O professor (sim, professor, muito mais que advogado) que em suas aulas e nos bares invocava com tanto entusiasmo as palavras de Boaventura de Souza Santos em sua “Pela mão de Alice”. Sua lembrança não quer nos sair da mente, seja a imagem do amigo cruzando as ruas sempre em perigo de ser atropelado, seja do mestre discutindo ideias nas salas e corredores da Universidade, seja do companheiro de pós-graduação divagando para nossas anotações e trabalhos.
Ficamos nós, exercitando nossa perplexidade, mas ainda sem sabermos como não sofrê-la. Talvez não tenhamos sido tão bons alunos como deveríamos ser. Talvez tarefas como essa sejam fáceis para pessoas como Boaventura ou Levy, sociólogos de todas as circunstâncias, porém tão difíceis para nós, meros aprendizes. Mas seguiremos tentando, querido amigo, pois para algo de bom tanta perplexidade haverá de servir. Vai, Levy, que teu lugar deve mesmo ser o céu.
José Renato de Oliveira Silva e Milena Costa Viegas de Oliveira Silva, bacharéis em Direito, foram alunos, colegas, e seguem sendo admiradores de Levy Alt, um eterno mestre.
A(Há) um outro mundo possível, com carinho.
Antonio Armando Ulian do Lago Albuquerque
Levy Alt simboliza algumas virtudes ainda presentes no curso de Direito da UNEMAT, Campus Jane Vanini. Sua criticidade jovial ainda perfila pelos corredores entre estudantes e alguns docentes, nutridos pela esperança de efetivação dos Direitos Humanos numa sociedade com uma abissal desigualdade social. Sua amplitude de horizontes de interpretação e relação da Sociologia do Direito para além de aplicações normativas, mas fundada na concretude de ações concretas na realidade das comunidades ainda persiste em vários projetos de extensão em desenvolvimento curso de Direito. Sua audácia e persistência na realização de pesquisa jurídica no interior do Mato Grosso, associado à gente pantaneira e suas territorialidades mantem-se viva. Sua energia contagiante, provocadora, junto aos coletivos do movimento estudantil mantem originariamente uma relação comprometida com a qualidade da educação jurídica, por isso mesmo, ainda se discute o ensino jurídico e suas limitações e possibilidades de melhoria no interior do curso de Direito. Sua seminal iniciativa, como Diretor da extinta FADIR – Faculdade de Direito, de uma Revista Jurídica, a Voluntas, por ele assim denominada, está novamente em gestação para publicação de nova edição. Para além de todas essas virtudes uma maior o caracteriza, amigo solidário de todos.
Foi professor de Sociologia Jurídica do Departamento de Ciências Jurídicas e Diretor da Faculdade de Direito, tendo falecido em um acidente de carro em abril de 2000. Sua passagem foi marcante no edifício de um curso intransigentemente radicado na defesa dos direitos humanos, da democracia popular e da Justiça Social, um ser humano afetuoso e muito lembrado pelos seus contemporâneos.
Com uma mente reflexiva crítica ao sistema e à ocupação do espaço político, do poder, apenas por vaidade, muitas vezes foi menosprezado por apresentar um olhar sobre o mundo de modo simples e, ao mesmo tempo, complexo, num emaranhado de pluralidade e sentidos, mergulhando num existencialismo de gozo permanente para e pela Vida sem, contudo, submeter-se aos caprichos do poder. Tecia nas armadilhas institucionais a sabedoria da arte do viver. Projetos mil passavam pela sua mente.
Inicialmente, Levu adentra na UNEMAT, como professor do Departamento de História. Muito embora tenha se bacharelado em Direito pela UFMT ainda não havia se encontrado com a criticidade jurídica antes de ter sido removido para o curso de Direito. A descoberta do Movimento de Direito Alternativo (MDA), construção crítica do Direito da década de noventa, acabou conquistando sua inteligência criativa. Foi assim que fundou o primeiro grupo de estudos do MDA da UNEMAT, denominado, em 1996, de Grupo de Direito Social a qual ajudei a compor desde o início. Levy tornou-se um marco ontoepistemológico na Faculdade de Direito, por um lado uma ruptura com o excesso conservador e positivista do modo de ser do jurista e, por outro, uma ruptura com o excesso legalista se contrapondo com uma interpretação sociológica do Direito.
Com ele algumas ideias surgiram e seu desaparecimento precoce acabou por adormecê-las, mas nada que o tempo não tratou de reconstituí-las. Entre elas estavam a formação de uma Comissão de professores vinculados ao estágio curricular, responsável em firmar convênio com a Pastoral Carcerária, hoje por meio do Prof. Juliano Moreno tem-se dois Clubes de Leitura junto aos Presídios masculino e feminino de Cáceres. Também havia formulado e deixado pronto os rascunhos de um grande Seminário para discutir a matriz da grade curricular e a mentalidade do ensino jurídico oferecido pela UNEMAT. Tinha a pretensão de construir uma linha de pesquisa num Mestrado Interinstitucional denominada Crítica ao Ensino Jurídico. Pensava ainda a possibilidade de oferecer um ensino jurídico diferenciado para e com os povos indígenas, vinculando-o com o Terceiro Grau Indígena, atual Faculdade Interétnica sediada em Barra do Bugres.
Levy era pessoa comprometida com ideais, com a Vida, com a felicidade. Era um intelectual insurgente e um amigo de batalhas. Não poupava esforços na tentativa de se inquirir sobre a verdade estabelecida pelo establishment. Um crítico da realidade e, por isso mesmo, muitas vezes um injustiçado pelos seus pares. Um cultuador da noite, da boêmia, das conversas dialogadas, daqueles que se ouve e que se quer ouvir o que se tem a dizer. Não tolerava picuinhas, fofocas de bastidores, e a mesmice rançosa das academias, por essa razão apoiava qualquer ação lúdica orientada para a música, poesia, literatura, para o viver a cultura. Na utopia inarredável de pensar um outro mundo possível em que as diferenças pudessem conviver sem preconceitos, trilhava caminhos ainda abertos à nossa compreensão. Ainda busco essa utopia cuja educação jurídica me foi proporcionada pela convivência junto ao grande mestre, com carinho, Levy Silva Alt.
Antonio Armando Ulian do Lago Albuquerque foi ex- aluno de Levy e tenta manter seu legado crítico.